Ela tomava seu café como fazia todos os dias ao sair do trabalho. Mas, esse era um dia especial, ou deveria ser. O mesmo cappuccino diário; A mesma forma de tirar os óculos e pô-los sobre a mesa ainda com as pernas estendidas; A mesma forma de juntar o material e a bolsa no outro único banco da, sempre, mesma mesa; A mesma forma de perder-se em seus pensamentos ao mexer a bebida. Mas, esse era um dia diferente, ou assim queria que fosse. Os pensamentos fugiam, buscavam alguém para tomá-los como posse, buscavam o dono tão esperado, desesperadamente. Talvez o que a fizesse crer que o dia era diferente fosse a certeza de que esse seria o dia em que acharia aquele que viera para preencher toda a sua falta.
Ele entrou na cafeteria como fizera todos os dias nos últimos meses. Atendido com a mesma presteza pela gentil atendente, fez o mesmo pedido que fizera nos outros dias. Um café expresso com menta e algumas daquelas gotas de chocolate que ficavam sobre o balcão. Puxou um livro da mala e começou a folheá-lo como se ficasse imune a qualquer movimentação que ocorresse no ambiente. Não conseguira ler ao menos um parágrafo. Pensava na solidão que tomara conta de sua vida; Pensava sobre como seria boa uma companhia para um jantar na casa nova; Como seria boa a divisão dos pensamentos diários; Como seria fantástica uma companhia na grande cama que havia comprado naquele inverno tenebroso.
Ela, ainda perdida em seus pensamentos, pára o olhar sobre aquele lindo rapaz sentado na sua frente. Seria ele? Seria o Deus tão generoso assim para atender-lhe todos os seus pedidos com tanta rapidez e com tão boa vontade assim, afinal ele era lindo?
Ele, em um movimento rápido para guardar o livro, depara-se com o olhar dela. Aqueles olhos?! Era como se os conhecesse há muito tempo. Talvez em sonho. Por um momento pensou em falar-lhe, mas não sabia o que poderia dizer. E, por fim, resolveu não tentar nada. Apenas pagou o seu café e foi para o estacionamento buscar seu carro para mais uma noite solitária e fria.
Ela se consolava, pois não era o tão esperado amor.
E, cada qual hoje segue seu rumo. Talvez o travesso destino apronte mais alguma das suas para pô-los frente a frente novamente. Ou talvez tenha se cansado da brincadeira e volte aos seus afazeres cuidando de outros casos que não o amor.
(Como sou feliz por não ser o personagem dessa estória)
Escrito por Letrero às 19h41
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