Olhava apreensivo o espelho e via sua imagem refletida. Começava a se construir e já estava com o rosto inteiramente branco. Seu olhar era profundo, com um misto de tristeza e indecisão. Desenha uma lágrima no seu olho esquerdo, seu rosto ganha um tom de extrema melancolia, as linhas do canto da boca se curvam para baixo e ele dá um longo suspiro.
Era chegada a hora escolhida. A hora em que ele iria atrás de sua amada, também amada por seu melhor amigo. Estava decidido. Iria até o fim. Mesmo que o fim fosse aquele que não havia escolhido. Estava decidido. Iria ganhar o amor da mulher que seu coração escolheu. Mesmo que roubasse esse amor. Mesmo que o preço fosse a perda da amizade sempre abençoada.
Não precisa caminhar muito. Logo encontra o casal em um jardim, iluminados pelo prateado da lua. Aproxima-se, tomando cuidado de não ser percebido no local, e escuta o que conversam.
O amigo acolhe a amada em seu peito e acaricia seus cabelos, no momento em que fala da alegria sentida na benção de seu amor. Ela suspira e conta que em sonho real um anjo havia conversado com ela e dizia que esse amor, que transbordava de seu peito, era fruto de todas as coisas belas já semeadas no mundo. Que esse amor já era escrito na criação do universo e que no livro mágico do destino havia uma citação do amor que atravessaria o tempo e recolheria os bons frutos para em seguida semear toda a magia que por ventura se perdesse.
O Pierrot escuta tudo isso, ainda escondido. Duas lágrimas se fundem a lágrima pintada e ele resolve ir embora. Ir para o mais distante que seus pés possam levá-lo. Em uma estrada vazia e abandonada senta-se e olha o céu. É como se conversasse com as estrelas. Indagasse o “por que” de sua sina. Por que escolher justo aquela mulher para entregar o coração? Promete que de sua boca jamais alguém saberá desse sentimento. Com as mãos desmancha em uma mancha única todo o ser em seu rosto e sente como se seu coração partisse em uma viagem longa junto com as lágrimas que ainda teimavam em fugir.
E, desde sempre, essa é a sua sina. Manter trancado seu sentimento, para que todo o belo possa ter esperança de vida.
Escrito por Letrero às 11h27
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